- “Política e Fé: Qual o correto sentido dessas palavras no atual cenário político?”
recente escândalo político brasileiro que flagrou o Governador e o Presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal recebendo propina não chocou apenas pela lamentável cena de corrupção envolvendo diretamente e pela primeira vez no país um Governador de Estado, mas principalmente por um detalhe que não chamou tanto a atenção da grande mídia: o Presidente da Câmara Legislativa rezando publicamente para que Deus “o livrasse daquela situação”.
Conforme já escrevemos em diversos artigos, a Política pode e deve ser um elemento de busca de uma nova sociedade como conseqüência da fé. Aliás, a Campanha da Fraternidade de 1996 Fraternidade e Política aborda muito bem essa questão. O Cristão possui, por obrigação, um grande compromisso com a transformação do mundo em que vivemos e a política, nesse cenário, é um importante meio para esse serviço. Inclusive, a omissão é um grave pecado, pois ela gera oportunidades para os maus políticos ingressarem na vida pública. O nosso livro lançado em final de 2007 pela Editora Mundo e Missão aborda bem essa questão. Entretanto, não devemos jamais deixar de observar e construir um senso crítico para conseguir separar o “joio do trigo”. Não é porque uma pessoa se diz cristã que passa, automaticamente, a ser merecedora do nosso voto e da nossa confiança. A recíproca também é verdadeira, pois há muitos ateus profundamente comprometidos com a ética e com o bom serviço público no exercício de um mandato eletivo. O próprio Cristo nos adverte sobre isso no Evangelho quando nos ensina que “nem todo aquele que diz Senhor, Senhor entrará no Reino dos Céus” ou ainda para tomarmos cuidado com os lobos com pele de cordeiro.
O triste exemplo que abre o artigo desse mês é apenas a ponta do iceberg. Há um bom número de parlamentares que abraçam algumas causas importantes como, por exemplo, a não legalização do aborto dizendo-se “defensores da vida” , mas que possuem diversos processos de corrupção em andamento nos Tribunais ou no Ministério Público por desvios de verbas públicas.
Trata-se, aqui, de um verdadeiro contra-senso, pois a falta de recursos públicos que são desviados dos hospitais por corrupção também gera morte. Parece que, para eles, ganhar o voto dos cristãos é fácil: basta abraçar duas ou três causas sensíveis ao povo cristão como a luta contra a legalização do aborto para ganhar o voto dessas pessoas. O resto como as práticas lamentáveis de corrupção, compra de votos com centros de assistências sociais, nepotismo e a corrupção na vida pregressa não é levado em consideração por esses maus mandatários. Além disso, precisamos olhar com muito carinho o Evangelho de São João que diz “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”. A dignidade da pessoa humana conseguida pela definitiva erradicação da pobreza e da miséria e que encontra intimidade com a vida em abundância prometida pelo Cristo nesse Evangelho é esquecida por esses parlamentares, mas não pode ser deixada de lado por nós!
Jesus Cristo, ao nos advertir sobre os lobos com pele de cordeiro, solicita-nos que olhemos para os frutos para reconhecer os bons profetas. Não há melhor indicação do que estudar o passado e a vida pregressa dos que concorrem aos cargos eletivos para julgar, efetivamente, se eles são merecedores do nosso voto. Isso é muito mais importante do que as propostas propriamente ditas, pois indicarão o real compromisso dos candidatos com elas.
Outro aspecto fundamental é a organização da sociedade na fiscalização da atuação parlamentar. Visitar as Assembléias Legislativas e as Câmaras Municipais para descobrir o que andam fazendo e votando os nossos parlamentares também é muito importante. Se eles tem o papel constitucional de fiscalizar o poder executivo somos nós, cidadãos(as) de bem, que devemos fiscalizá-los. Afinal de contas, como disse Frei Betto: “política é como cozinhar feijões, só funciona na pressão”.
Só assim, participando ativamente, é que poderemos, efetivamente, mudar a política em nosso país.
Um grande abraço, a Paz de Cristo e vamos colocar sempre o “Bem Comum acima de tudo”.
Robson Leite
www.robsonleite.com.br
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